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Aprenda aqui como ocorre a fisiopatologia inflamatória no tecido – Parte 2

Ao entender o processo inicial da inflamação podemos perceber que um animal possui uma quantidade normal de neutrófilos segmentados no sangue, não sendo relacionado a um estado de doença, mas sim a um estado normal de saúde.

Ao ocorrer um insulto, infeccioso ou traumático, com lesão, os neutrófilos irão migrar para o tecido, ou seja, do ponto de vista laboratorial é esperado que ocorra uma queda da quantidade de neutrófilos na corrente sanguínea, denominada de neutropenia. Entretanto, é muito difícil detectar esse momento de neutropenia, já que sua ocorrência é fugaz. Ou seja, muitas vezes esse animal não está apresentando sinal clínico, mesmo que o efeito inflamatório tenha sido iniciado, assim podemos chamar esse momento de neutropenia subclínica. 

O neutrófilo é a principal célula de defesa, primeiro porque é a célula de defesa que existe em maior quantidade e segundo porque é a primeira linha de defesa orgânica, capaz de realizar resposta contra qualquer tipo de insulto.

Sendo o neutrófilo essa célula de tamanha importância o organismo mantém uma reserva desse tipo celular, que é encontrada na periferia da circulação, bem próxima do endotélio. Quando ocorre o recrutamento de neutrófilos para o tecido, a quantidade de neutrófilos circulantes é rapidamente reposta, motivo que leva a neutropenia subclínica ser muito fugaz. 

Podemos então perceber que existem dois compartimentos de neutrófilos, o pool circulante (que estão na corrente sanguínea) e o segundo é o pool marginal (que ficam na periferia dos vasos).

Quando o pool marginal é recrutado há um incremento na concentração de neutrófilos da corrente sanguínea. Assim, processos inflamatórios iniciais são observados ao hemograma como uma neutrofilia, pois o pool marginal é totalmente recrutado.

Ao entender essa fisiologia da resposta do neutrófilo a inflamação é possível estudar a diferença entre um processo inflamatório e um processo infeccioso (bacteriano).

E quando ocorre uma invasão tecidual bacteriana?

Quando ocorre uma invasão tecidual bacteriana, essas iniciam um processo de multiplicação celular. A bactéria promove lesão ao tecido tornando-se mais intensa conforme o processo de multiplicação bacteriana progride. Um forma de exemplificar esse evento é pensar na invasão uterina por bactérias que podem promover a piometra.

A lesão tecidual libera as citocinas inflamatórias, que promove a atração dos neutrófilos para o tecido e, ao mesmo tempo, estimulam a célula tronco a produzir mais neutrófilos.

Ao ocorrer o recrutamento dos neutrófilos para o tecido há a neutropenia subclínica, sendo que a queda do pool circulante induz a liberação do pool marginal, aumentando a quantidade de neutrófilos circulantes. ou seja, até esse momento não há diferença entre a resposta inflamatória e infecciosa.

Quando o neutrófilo chega no tecido lesionado e com presença de bactérias existem uma indução de fagocitose das bactérias para depois iniciar a limpeza do tecido. Essa é a diferença fisiológica entre o processo inflamatório e infeccioso. No processo infeccioso o neutrófilo dá preferência para a eliminação da causa base do insulto (as bactérias) e depois realizar a limpeza do tecido, já em um processo inflamatório não infeccioso o neutrófilo inicia a limpeza do tecido diretamente.

"Ao fagocitar uma bactéria, o neutrófilo libera um conteúdo enzimático altamente destrutivo, capaz de destruir a célula bacteriana, mas esse conteúdo enzimático também tem a capacidade de destruir o próprio neutrófilo. Assim, a digestão da bactéria no interior do neutrófilo promove a digestão também do próprio neutrófilo"

No processo inflamatório não infeccioso o neutrófilo é capaz de promover a limpeza do tecido por um grande período de tempo, limitado apenas pela sua morte programa, já no processo infeccioso bacteriano o neutrófilo o tempo de função do neutrófilo no tecido é limitado a fagocitose da bactéria, sendo uma morte celular antecipada.

Quando pensamos em tecidos com grande quantidade de células bacterianas entendemos que o recrutamento do neutrófilo para esse tecido será muito grande, já que sua função é limitada a digestão de pouquíssimas células bacterianas, dependendo de quantas unidades são fagocitadas ao mesmo tempo. Assim, clinicamente há a formação do pús, uma coleção de bactérias e neutrófilos digeridos.

Como o recrutamento do neutrófilo pelo tecido é muito grande na ocorrência de insultos infecciosos bacterianos, a necessidade de disposição de tipo celular é grande, exigindo o uso do pool circulatório e também do pool marginal quando o mesmo é recrutado. A neutrofilia produzida pela liberação do pool marginal passa a ser consumida, reduzindo a disponibilidade de neutrófilos circulantes novamente. Assim, é possível, por exemplo, existir um paciente em processo inflamatório infeccioso bacteriano em curso e a contagem de neutrófilos no hemograma ser normal ou ainda neutropenia (dependendo do recrutamento)

"Na avaliação laboratorial de um paciente em processos inflamatório infeccioso bacteriano em curso é possível verificar contagem normal de neutrófilos, neutropenia ou neutrofilia"

Como a migração dos neutrófilos está ocorrendo muito rapidamente nesse processo e há um consumo rápido dessas células, ao mesmo tempo que a produção de citocinas inflamatórias persiste em sinalizar o recrutamento e a produção de novos neutrófilos, a medula óssea passa a não conseguir produzir neutrófilos adultos na velocidade necessária para suprir a demanda.

Como efeito direto dessa super estimulação da medula óssea, essa passa a liberar células mais jovens para realizar a defesa do tecido. Assim, há aumento do número de bastonetes na corrente sanguínea. Caso o processo infeccioso ainda mantenha o alto consumo de neutrófilos (segmentados e bastonentes), pode começar a ocorrer a liberação de células mais jovens ainda, ou seja, metamielócitos.

Vale salientar que células mais jovens tem uma capacidade menor de defesa do que as células completamente amadurecidas. Além disso, ainda é possível, dependente da intensidade do processo infeccioso a necessidade de recrutamento de células mais jovens ainda, como o mielócito.

O aumento de células jovens da linhagem dos neutrófilos na corrente sanguínea é denominado de desvio a esquerda.

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Em resumo…

Um processo inflamatório leva a uma neutrofilia, enquanto que um processo inflamatório infeccioso bacteriano pode levar a contagem normal, neutropenia ou neutrofilia, mas nesse processo é frequente o desvio a esquerda, pelo grande consumo de neutrófilos no tecido.

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